quinta-feira, 20 de março de 2008

Ao vencedor, as batatas

O dia de hoje foi uma jornada.
Botei o pé fora do instituto aonde faço mestrado na USP e começou a chover.

-Ah! chuvinha a toa! Quando engrossar eu saco meu guarda-chuva!

Engrossou. E eu notei que tinha esquecido o guarda-chuva. Quebrei a regra de ouro de São Paulo: Não saia sem guarda-chuva!

Falei comigo mesmo e cheguei à conclusão que era melhor correr.
Passei por um gordinho e quando estava uns dez metros na frente dele eu escuto...

-AAAAAH! AAAAAH!

-Meu Deus! O gordinho está passando mal! - Disse pra mim mesmo antes de voltar correndo pra acudir o coitadinho!

-AAAAAH!

-Cara! Você está bem?

-Ch... Ch... Chu... chuva... ffffi... filha... da puta...!

O gordinho só estava cansado de correr da chuva, então eu saí correndo novamente.

Parecia o Forrest Gump.

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Quando cheguei no primeiro abrigo eu já estava encharcado. Então resolvi andar pelo viaduto mesmo. Mais molhado não dava pra ficar. Aí passei por 3 estágios.

Negação: Andava com cuidado e encolhido na lateral da calçada... com medo dos carros espirrarem água suja em mim... cada carro que me jogava água era um "filho da puta" que eu mentalizava em direção ao desgraçado.

Raiva: Esqueci meu bem estar, e a cada banho de água suja eu gritava obcenidades e chutava estupidamente água em direção ao carro que tinha me humilhado, que por sinal já se encontrava a uns 100 metros de distância...

Aceitação: A cada banho de água suja eu não mexia nem mais um músculo fora aqueles usados pra andar para frente de maneira determinada e com uma cara de psicopata.

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Resolvi pegar o trem pra não molhar o ônibus e as pessoas (por alguma razão não me preocupei em molhar o trem...).

Infelizmente esse maldito transporte estava andando a 1km/h por causa da chuva. Com sorte levaria somente um par de horas até chegar no metrô.

Umas três estações depois de pegar o trem descobri que estava no trem errado. O ódio me deixou cego e burro e tive que pegar outro pra andar tudo de volta.

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Depois de 2 trens, 2 metrôs, e alguns quilômetros de caminhada, encontrei uma mendiga dançando no meio da avenida Domingos de Moraes, já perto de casa.

A dança consistia em cerrar os punhos e dobrar os joelhos, depois era só ficar fazendo curtos movimentos para cima e para baixo (como uma mola) e para os lados simultaneamente.

Todo molhado eu andei ao lado da mulher e dancei com ela aqueles passos tão divertidos.

Ela olhou pra mim e abriu um sorriso sem muitos dentes e emitiu um som qualquer.

Primeiro seus olhos diziam:

-Eu pelo menos tenho uma justificativa pra dançar no meio da rua. Sou tam tam da silva...

Depois ela sorriu o sorriso mais puro que eu já vi como se dissesse:

-Até que enfim alguém lúcido nessa cidade!

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O balanço foi positivo. Afinal, depois de tudo, no finzinho da festa eu dancei com a moça mais bonita da cidade.

Um comentário:

Patricia - Narizinho disse...

FANTÁTICO!

vc transcreveu a grande metáfora de "quem está na chuva é p/ se molhar" perfeitamente em um post lindamente belo! (isso existe?)