domingo, 29 de julho de 2012
Mas que diabos houve comigo naquele tempo?
sábado, 5 de maio de 2012
Ruína
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Papito
-ô! ô!
Parei e olhei para um senhor de meia idade que me gritava "ô! ô".
-Quê?
-Habla español? Speak english? Eu sou espanhol!
-Hablo e ispíco, mas pode ser português mesmo.
Aí veio uma conversa sem pé nem cabeça sobre o país de onde eu vim e sobre como eu falava um português fluente.
-Se eu quiser te roubar um euro como é que eu faço?
-Se você quiser me roubar um euro você está lascado. Eu não tenho nem um centavo.
Os três rapazes desdentados e queimados de sol que acompanhavam o espanhol com quem eu conversava começaram a rir repetindo o que eu tinha acabado de falar. O espanhol começou a rir também. No banco do calçadão alguma comida que parecia um despacho de macumba esfriava sob a nossa prosa.
-Kafka! Kafka! Você sabe quem foi Kafka??? - Me perguntou, em inglês, o espanhol que lia uma frase, supostamente do Kafka, na minha camisa - Me fale uma frase de Cristo!!! Me fale uma frase de Cristo!!! Deixa que eu falo: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo”.
Olhei sorrindo e ele acrescentou:
- Há um ditado grego que diz assim... - E ele falou em algo que pareceu ser grego - Sabe o que quer dizer isso? "Aquele que ama, ama eternamente". AQUELE QUE AMA, AMA ETERNAMENTEEEEE!!!! - O Espanhol começou a gritar para todo mundo que passava na praia.
- O moço tava correndo, Papito... - disse o desdentado que sorria.
- Não tem mal, eu gosto de conversar com o Papito. - Disse eu.
- I love you. - Disse o Papito.
- I love you too. - Disse eu.
- Se eu quiser te roubar um euro, como é que eu faço? - Disse o Papito.
- OK. Vamos tomar uma pinga. Eu boto na conta. - Disse eu para o Papito e os três desdentados, apontando para o bar mequetrefe cujo o dono eu conhecia.
Antes de sentarmos nas cadeiras de plástico que estavam na areia notei e comentei sobre a camisa do Barcelona que Papito usava.
- BARCELONAAAA!!!! ÊÔOOOO! ÊÔOOOOO!!! - Rugio Papito para todos que passavam.
Durante a pinga não conversamos muito.
Aparentemente todos nós levamos a bebida muito a sério.
sábado, 8 de outubro de 2011
Liga não. Estou bêbado e provavelmente vou apagar isso amanhã.
Nós somos essas pessoas que, diariamente, comentam sobre os motivos dos nossos fracassos. É tudo tão frustrante. Tudo é sempre um empecilho pra tudo e as coisas entram em um círculo vicioso em que tudo vira uma desculpa para tudo também.
Isso é um problema real. É difícil escapar. Você anda com essa bola de chumbo no pé e ela parece feia, você sabe que é feio sair por aí a exibindo, mas o que pode ser feito? ela está lá.
Então você se sabota em um momento ou no outro, no princípio ou no fim, alimenta o que sabe que não é mas gostaria que fosse ou alimenta o que é pra tirar a bunda da seringa no sprint final, afinal você não pode vencer mesmo, então pra que tentar se o fato é que quebrar a cara é o destino? Os meios fornecem algum prazer e vamos levando.
O que eu aprendi nessa minha vida é que tudo pode. Você pode mesmo fazer coisas incríveis com menos esforço do que imagina. Precisa de coragem verdadeira. E não dessa covardia disfarçada de coragem arrojada. Você vai surtar, mas essas desilusões são um saco pra continuar ali olhando tudo isso passar.
Não ligue. Eu ando bêbado nos últimos tempos. Então eu venho aqui pra escrever as cartas mentais que jamais mandaria. Dá um certo alívio, mas eventualmente crio atritos porque uma ou outra pessoa acha que é particular. Mas não é. O ser humano é muito previsível e chato. A gente é mais parecido com aquela figura escrota que vivemos criticando.
Tá tocando essa música eletrônica em algum lugar por aqui perto (Preferia Bach. Algo para violoncello de Bach) e eu estou meio bêbado agora , não escreveria nada disso se não estivesse. Eu sou meio covarde pra falar coisas que não interessam a ninguém. Não sei porque. Elas não interessam a ninguém. Se bem que deve ser por isso mesmo. Se interessassem seria muito mais apropriado e fácil falar qualquer coisa.
Hoje eu me cadastrei como voluntário para fazer qualquer coisa para ajudar crianças e idosos abandonados.
A gente fica correndo o tempo todo pra ver se dá algum significado a essa merda toda. Mas tudo deve ser mais simples do que nós achamos que deveria ser.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
O carro do meu avô
Meus avós possuíam um belo BMW aqui em Portugal. Todo chique, nos trinques, motivo dos orgulhos que correm assim, digamos, até onde a vista alcança, mas invisíveis quando debaixo de uma fina camada de pó.
Em um belo dia, após uma dessas festas-orgias alimentares que ocorrem tão freqüentemente nas casas e restaurantes dos do meu sangue, meu avô, ofuscado pelos raios de sol do fim da tarde que varriam estes tapetes que são as estradas de Portugal, e pelo whisky que circulava nos seus vasos sanguíneos e tecidos, inclusive nas suas novas válvulas “interespecíficas” (já que não são originalmente da nossa espécie) do coração, saiu velozmente da estrada, levou o carro por um monte de brita acima, alçou vôo e aterrissou, chapado, do outro lado.
Não sobrou nada que se aproveitasse do carro. O piloto e passageiros saíram de lá inteiros, com uma ou outra escoriação que não pareciam grandes diante do estado do automóvel.
Isso aconteceu há uns anos.
Estou agora por essas terras lusas, com meus avós e tias-avós. Os tenho conduzido todos os dias para onde quer que eles queiram ir. Guio um grande Mercedes, do início da década de 80, que meu avô chama de “transatlântico”. Pedaço concreto da história da família, esse carro merecia um livro somente sobre ele, devido ao seu significado e à sua “vida”.
Nunca tive tanto prazer em guiar um carro. E o prazer se torna ainda maior quando conduzo quatro das pessoas que guardam os segredos e histórias do que se passou com personagens de outros séculos, que já carregavam características que hoje levo comigo.
Percebo a comodidade, segurança e status que um novo carro traria nesse momento. E até concordo com o auê e empolgação em torno do assunto. Mas não acredito repetir a experiência que tive nos últimos dias se tamanha euforia for concretizada.
Transportar esse senhor e essas senhoras através de vilas de pedra e de grandes cidades de concreto nesta terra é dessas coisas que guardarei comigo até o fim dos meus dias.
~~
Outro dia saímos, eu e meu avô, do lava rápido, após banhar o nosso “transatlântico”.
- Ah! Agora ficou limpo! É um carro bonito! – trovejou meu avô.
Demos alguns euros de gorjeta para a jovem venezuelana de cabelos vermelhos que fazia a limpeza mais minuciosa e partimos, navegando pelas estradas de Portugal.
Em determinado momento passamos por uma propriedade nossa, e meu avô, com um gesto nada sutil, mandou-me virar e entrar naquele lugar, que por acaso está cheio de pinheiros altos como arranha-céus, terra, pedra e mato. Muito mato.
Assim fizemos, e levamos o transatlântico por terras inexploradas. Só para passarem a serem exploradas mesmo. Nada de mais.
No fim de tudo, o carro de quase 40 anos, lavado e brilhante, acaba cheio de pó e mato a enfeitá-lo. Com uma calota torta e faróis felizes.
Não me perguntem. Pode parecer estupidez. Mas a impulsividade e o desapego desse senhor, em prol da sujeira e do sorriso, me fez pensar que sou mesmo parte da família.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Cansei da minha própria raça. Somos todos idiotas.
Andei pensando (!?!?!?) sobre umas coisas. Algumas coisas socio-teológicas.
Isso. Sócio-teológicas. Soou arrogante o suficiente.
Costumo ficar puto com muitas coisas. Uma delas é a bestialidade com que ateus (não se enganem, me coloco entre eles, se é que o conceito de deus é restrito o suficiente para que eu componha o pelotão dos sem-fé) abordam o cristianismo.
Falar mal de religiosos já está batido demais. Então resolvi comentar algo sobre a estupidez da maioria daqueles que pregam abobalhadamente o fim imediato de qualquer instituição que não seja laica. Vejo isso como vejo o orgulho com que veganos radicais atacam os carnívoros... ...ou os que usam carteira de couro... ou todos os que não fotosintetizam. Ou seja, vejo isso como vejo qualquer pessoa que não leva em consideração diversos aspectos do ser humano, da sua história e da sua evolução.
Nós vivemos em um mundo cristão (nós. você e eu). Me impressiona muito o deslumbre intelectual sobre mitologia grega, ícones pagãos, deuses de comunidades americanas nativas, os milhares de personagens sobrenaturais de diversas civilizações orientais... e por aí vai. Houve e há barbaridade relacionada a essas "peculiaridades antropológicas" que fariam com que os pêlos do rabo de qualquer ser humano "civilizado" ficassem eriçados. No entanto, a grande parcela dos meus companheiros, que estudaram em grandes instituições de ensino e pesquisa, parece não conhecer quase nada sobre aquilo que atacam, e atacam de uma maneira tão simplória que soa patético, assim como soa patético a maioria dos fanáticos religiosos tentando falar algo sobre evolução e origem das espécies.
Digo e repito: a mitologia cristã é tão, ou mais, interessante do que qualquer outra. Não me façam passar vergonha, meus amigos. Ao questionarem um homem de fé, questionem um doutor no assunto, e não um fiel semi analfabeto.
Já esbarrei com diversos "revolucionários" (pseudo(-)intelectuais como eu usam muitas aspas na falta de um vocabulário mais apropriado) que ao criticarem, em não menos do que 50000 palavras, o cristianismo, concluem com um singelo "eu não sei nada sobre a história dessa religião", ou "eu evito entrar em igrejas", ou "eu não quero nem saber o que está escrito na bíblia". Não entendo bem. Posso falar algo com 50000 palavras sobre física nuclear, mesmo sem saber nada sobre o assunto, mas jamais seria levado a sério.
Há outros meandros que valeriam a pena serem comentados. Como a coragem de personagens associados com a fé cristã que se meteram e abraçaram causas como raramente vi acontecer com meus companheiros de profissão. Os meios pelos quais isso acontece são discutíveis, esse é um assunto espinhoso que não vale ser publicado em um post bobo como esse. Mas eu sinceramente não consigo enxergar candidatos à intelectuais da classe média-alta se engalfinhando com qualquer questão que tire o seu conforto. Nós somos muito apegados a certas coisas, apesar de constantemente brincarmos de Indiana Jones para dar algum significado a nossas vidas. Eu faço isso. É bastante fácil ser contra ou a favor de algo quando no final do dia você pode voltar para o seu sofá no bairro nobre da cidade. Pessoas assim não deveriam criticar tão ferrenhamente certos setores da sociedade. Estou entre essas pessoas e deixei de disparar palavrões contra as "vossas santidades" antes de saber de fato quem são.
A infância custa a nos largar, companheiros. Crianças culpam as pernas da mesa depois de toparem nelas.
Enfim, cansei de falar sobre isso.
Mas ainda poderia continuar por mais uns 2000000 de caracteres.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Aos intelectuais do meu coração
-O Pateta regendo uma orquestra sinfônica;
-Um filme pornô em que o ator não goza nunca, por mais que grite e gema.
Não me perguntem a razão. Eu gosto bastante de Mahler.
~~
Estou em Recife faz pouco mais de uma semana e lembrei, saudoso e entre choramingos, de uma das noites de despedida com alguns amigos. Entre eles psicólogos, musicistas, filósofos, biólogos, artistas plásticos... ...e um advogado (!?).
Achei que deveria falar algumas palavras e o fiz, como segue:
"Nunca fui bom em dizer coisas. Na maioria das vezes em que abri a boca para falar algo que realmente pensava me meti em enrascadas ou fiz inimizades para todo o sempre. Acho que por esta razão costumo ser irônico e reticente em alguns momentos e semi autista em outros, o que só me custou desavenças esporádicas. Portanto serei breve em expressar meus sentimentos em relação à minha partida e a vocês todos, meus queridos amigos. Enfim, adaptando as palavras do pai de um grande companheiro de infância, vos digo: INTELECTUAIS DO MEU BRASIL, VÃO PRA PUTA QUE VOS PARIU!!!".
Fui ovacionado. Claro. Eram intelectuais de meia tigela.
